Censo Agropecuário de 2017: precisamos dele também por razões ambientais

Há alguns dias a Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado (CRA) acatou a emenda que destina os R$ 1,825 bilhão para a realização do Censo Agropecuário, que deveria ter ocorrido em 2016, revertendo o corte orçamentário de meses atrás que inviabilizaria sua realização, adiada para o ano que vem. No momento em que se ceifam investimentos em Educação e Saúde, gastar quase 2 bilhões em dados estatísticos no meio rural soa decisão perdulária e semeia discórdia. Mas vale cada centavo, semente plantada e árvore que podemos recuperar.

De 2006 – ano do último censo – para cá, o Brasil se tornou o terceiro maior produtor agrícola do mundo, atrás somente dos EUA e União Europeia. A área de soja cresceu 10 milhões de hectares, a de cana quase 4 milhões e o rebanho bovino aumentou em 10 milhões de cabeças, com o valor da produção agropecuária quase que duplicando. Feijão, arroz e mandioca perderam juntos 2 milhões de hectares e nos tornamos importadores do nosso prato típico. Nesse meio tempo desmatamos algo em torno de 24 milhões de hectares de florestas, cerrados e outros biomas e ecossistemas, área equivalente ao Reino Unido. O PIB do Agronegócio cresceu R$ 290 bilhões, o suficiente para financiar 159 censos.

Mas porque realizar o censo se já sabemos disso tudo por outras fontes, incluindo pesquisas anuais realizadas pelo próprio IBGE? Porque só através dele conseguimos enxergar o meio rural para além de sua produção. O censo de 2006 – estamos falando de uma década atrás – revelou, por exemplo, em que trilhas seguíamos para alcançar o crescimento agrícola. Para citar algumas, a desigualdade fundiária em 2006 era 48% superior à já enorme desigualdade de renda geral; a quantidade de vegetação nativa alegada como pertencente aos seus ocupantes não caberia no Brasil se descontássemos as Terras Indígenas, Unidades de Conservação e áreas oficialmente declaradas como não destinadas; 91% dos estabelecimentos rurais não contavam com Assistência Técnica regular; 255 mil pessoas se consideravam produtores rurais mas não tinham área para exercer sua vocação; a produção com agricultura familiar era mais eficiente do que aquela sem esse perfil, sendo responsável por 27% do valor total da produção mesmo dispondo de 24% da área total; 73% dos estabelecimentos não usavam agrotóxico; um terço das nossas pastagens eram na verdade ecossistemas campestres; tínhamos o equivalente a 1 Uruguai em terras degradadas ou abandonadas. Pareceria mentira não fossem os dados.

"Não saber o que está acontecendo é também uma péssima estratégia ambiental"

Em meio a tantas mudanças que ocorreram no país nessa última década, o que terá acontecido com a estrutura rural, esse pedacinho do Brasil que ocupa 99% do nosso território? Não sabemos. E o pior é que talvez não saibamos por ainda mais tempo, porque o censo decenal não está garantido, o que é um absurdo para um país tão dependente da agricultura e que sistematicamente deteriora seus termos de troca ao exportar cada vez mais água, solo e proteína para importar relativamente cada vez menos microchips. E faz isso derrubando árvores centenárias com máquinas de última geração.

Por isso, não saber o que está acontecendo é também uma péssima estratégia ambiental. O Censo Agropecuário, que seria melhor chamado de Censo Rural, tem a preciosa função de nos apresentar as bases agrárias que teremos para implantar tantos compromissos assumidos, mesmo aqueles considerados modestos. Os fascinantes mapeamentos por satélite e modelos complexos de priorização espacial são capazes de indicar, por exemplo, as áreas estratégicas para restauração dos 12 milhões de hectares prometidos pela nossa INDC, bem como diagnosticar os outros 15 milhões de hectares degradados a serem recuperados, outra promessa. Mas ainda está por ser inventado um satélite que bata à porta do produtor rural para saber se ele conta com Assistência Técnica, orientação sem a qual não se quebra a inércia cultural que emperra a intensificação das pastagens no Brasil. E sem aumento da produtividade as chances das florestas em pé diminuem.

Ignorar a origem das receitas e destinos dos custos de produção impossibilita estimar o lucro, e daí o custo de oportunidade de se reservar áreas a serem restauradas com vegetação nativa. Sem saber a quantidade de pessoal ocupado nas atividades rurais, não dá para contar a capacidade de mão-de-obra disponível no campo para plantar as mudas e sementes das florestas vindouras. Desconhecer a composição dos investimentos realizados com capital próprio e de terceiros dificulta a proposição de taxas de juros especiais para créditos destinados à adequação das propriedades ao Código Florestal. Dessaber o quanto de vegetação nativa é declarada como APP e Reserva Legal impede entender a quantas anda a disposição do produtor em assumir seu comprometimento com o Código, e inviabiliza comparações com o Cadastro Ambiental Rural (CAR).

Enfim, sem um levantamento abrangente do que se passa no chão fica difícil dar escala a qualquer coisa. E é por isso que o censo agropecuário é muito mais do que agrícola e agrário, é rural, e que nos dará a posição de onde estamos e aonde podemos chegar com as políticas ambientais e comprometimentos que temos assumido.

Fonte: http://www.oeco.org.br/colunas/colunistas-convidados/censo-agropecuario-de-2017-precisamos-dele-tambem-por-razoes-ambientais/

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